Avós como Nós: RITA FERRO

Avós como nós
Por trás daquela “mulher que não chora” está a “outra” a que se comove e chora ao ver uma cena dramática dum filme ou ao ouvir uma balada triste.
Contrastante e desconcertante, Rita Ferro é, segundo as suas próprias palavras “aquilo que é” para quem  “a vida é um campo de obstáculos. É divertido, perante o maior obstáculo, saber resolver.”( Entrevista a Anabela Mota Ribeiro DN 1999). Hoje, num texto emotivo e divertido, partilha com o “Avós sem Nós” a sua experiência como Avó de 4 netos.

 Redenção

Como a minha filha viaja muito, fico frequentemente com os seus 3 filhos.

Reparo que estou sempre feliz quando estou com eles, mesmo a rebentar de cansaço. Sou dada a neuras, mas nunca quando estão. São três rapazes; o mais velho tem 12 e o mais pequeno 4. Dormem sempre na minha cama quando são bebés e, em regra, acordam-me a meio da noite com um pontapé nas costas ou uma lambada involuntária. P

or vezes não me agradecem os presentes e, quando entro no escritório, nem olham para mim, absortos que estão nos seus jogos de vídeo ou de consola. Chegam a descarregar aplicações no meu computador, paralisando-o por uns dias. Um deles, apesar de magro, tem fomes mórbidas e esvazia-me a despensa. Como tenho 3 televisões, é possível encontrar um em cada divisão vendo desenhos animados e torturando-me com aquelas locuções infantilóides, todas desfasadas.

Mas dão-me mais do que eu a eles. Oferecem-me a possibilidade de os educar melhor do que aos pais, ou seja, de me redimir de tanto erro, e de lidar com crianças de uma forma mais inteligente e ponderada, menos impaciente e egoísta. E posso dar-lhes beijos, que é a coisa de que mais gosto no Mundo.

Por outro lado, uma avó que lida com crianças nunca está completamente desactualizada: sei sempre a música que está na moda, os ténis, as roupas, as últimas tecnologias. O do meio, por exemplo, comunica muitas vezes em rap; tem 9 anos e já tem um canal no youtube. Filma-se, filma constantemente. O mais velho sabe fazer um bom arroz branco no microondas e ensina-me o truque. E o mais novo pede-me colo quando saímos, o que me enche de ternura, mas agrava as minhas hérnias.

Por vezes, um deles regurgita no carro o leite com chocolate, ou pisa sem querer bolachas no tapete, ou entorna o leite na bancada onde os sento, sujando-se todo. De vez em quando discutem aos gritos, obrigando-me a gritar também para os mandar calar; noutras ocasiões, os dois mais velhos lutam e esganam-se até à asfixia, e tenho que correr para os salvar da morte. Quando estão, não escrevo uma linha, uma verbo que seja.

O que me cansa mais é os banhos, tanto que inverti a ordem natural das coisas: despacho-os de manhã, porque ao fim do dia já estou tão cansada que não reajo bem a pegadas molhadas pela casa toda – de manhã também não, mas tenho outra força.

A minha neta Antoninha, filha do meu filho, tem 1 ano e berra assustada quando me vê. Vai para o colo de toda a gente menos para o meu. Já experimentei recebê-la de rabo-de-cavalo para fingir que sou outra, mas não resulta; aparentemente, gosta mais do meu cão do que de mim. Resigno-me; vou ter que esperar uns meses até que me deixe afundar-lhe uns beijos naquelas bochechas irresistíveis.

Em suma: são cansativos, desarrumados, insistentes a pedir isto ou aquilo – “vá lá, vó, vá láaaaaaaa” –, por vezes ingratos e malcriados. Tenho a certeza de que, quando forem grandes, já não se lembrarão com que esforço os recebo às vezes ou com que sono lhes conto histórias; tenho a certeza de que não se lembrarão de nada, a não ser de um presente melhor que lhes tenha dado ou do frasco de gomas que sempre os espera; mas não trocava o prazer de os ter – nem pensar – por uma oportunidade de bom sexo.

Enfim. Não sei se escandalizei alguém com este epílogo, mas foi de propósito. Para acordar todas as mulheres que desistem de o ser quando são avós.

Comentários

comentários