O neto chique

Eu Sem Nós

O neto chique deveria ter nascido com num berço de ouro mas as gerações anteriores foram sucessivamente trocando o ouro por prata, por cobre, por ferro e por fim, o ferro por madeira, de forma que, actualmente, 80% dos netos chiques vulgares nascem num berço do Ikea.

O berço está, evidentemente, numa casa senhorial cheia de correntes de ar porque não há dinheiro para substituir as janelas que estão empenadas, casa essa que ninguém quer vender porque não há quem lhes consiga dar o preço correspondente às histórias, carregadas de memórias emotivas, ligadas a ela.

Ao contrário do neto suburbano e do “neto das tias”, um neto chique raramente é filho único

Ter uma família enorme é uma característica dos netos chiques. Uma data de irmãos, primos, tios, Avós, tios-avôs, e parentes até ao décimo grau, fazem parte da sua família nuclear e são todos tratados como se fossem irmãos, o que de certa forma explica porque é que o ouro do berço se transformou num berço Ikea: há que dividir por muitos o que quer que haja. A outra explicação para este fenómeno é que os Avós chiques nunca se preocuparam com dinheiro, esse vil metal, e gastaram-no como se não houvesse amanhã.

É claro que há alguns que têm e tiveram uma família pequena, pertencendo àquela minoria de 20% que continua a nascer em berço de ouro ou perto disso. Os seus antepassados não foram perdulários e pouparam para as gerações vindouras ou então não tiveram muitos filhos, vá-se lá saber porquê, uma vez que a televisão só apareceu na segunda metade do século XX.

A avó dum neto chique também já não é o que era porque, a meio do percurso – leia-se revolução dos cravos -, trocaram lhe as voltas e ela teve que se fazer a uma vida para a qual não foi definitivamente criada.

Ainda tem uma certa esperança – embora saiba que é vã – que o tempo volte para atrás, por isso continua a fazer tudo como se isso tivesse realmente acontecido. Trata os netos como os príncipes que acha que ainda são… ou que seriam se… ou quem sabe, um dia serão, e educa-os como ela própria foi educada e educou os filhos, uma educação que implica beber um chá cuja receita é um segredo tão bem guardado que hoje em dia já ninguém sabe bem qual é; transmite-se naturalmente… ou não.

Um neto chique nasce com alguns privilégios e carregadinho de deveres. O dever de ser sempre bem-educado, de dizer bom-dia e boa-tarde, obrigado e por favor a toda e qualquer pessoa com quem se cruze, o dever de ter cuidado com as outras pessoas, o dever de ser humilde, o dever de pedir desculpa quando ofender alguém, o dever de ter respeito pelos mais velhos, o dever de ter uma só palavra… em resumo, o dever de não envergonhar o nome que tem, com uma sucessão de regras que vêm dos tempos do primeiro rei de Portugal.

Quanto aos privilégios não tem bem a certeza de saber quais são, mas, de tanto lhe repetirem que é um privilegiado, não é só ele que acredita. São todos os outros à sua volta!

Os netos chiques andam normalmente em colégios particulares no primeiro ciclo, e saltam depois para a escola pública onde, se misturam sem qualquer problema com qualquer outro tipo de neto, mas, de uma forma quase instintiva, mesmo que não se conheçam, neto chique e neto chique, mal olham um para o outro, percebem que são da mesma raça. Os outros também mas como o neto chique trata todos por igual, faz muitas vezes amizades improváveis que duram toda uma vida.

Estes netos tratam toda a família por você e não percebem quando os outros netos perguntam se esse tratamento não é demasiado cerimonioso entre pais, irmão, primos etc. Porque é que havia de ser??

Se um neto chique é do campo normalmente gosta de touradas: se pertence aos 20% é cavaleiro tauromáquico, se pertence aos 80% é forcado. A maioria dos da cidade jogam rugby e 20% fazem vela num barco próprio.

Estes netos podem ou não, continuar a estudar, depois do liceu. No meio de tanta filharada, primos, tios e Avós, a família não consegue andar em cima de cada neto a insistir que ele trabalhe e estude, de maneira que terá que ser ele mesmo a perceber que sem trabalho não vai a lado nenhum. Uns percebem e outros não. Os que percebem tiram qualquer curso que lhes apeteça e no fim, com algum jeitinho, ainda há um tio afastado ou um amigo do tio afastado que tem uma vaga, na sua empresa, para ele. Os que não percebem começam por servir à mesa num restaurante qualquer para ganhar umas massas e acabam por abrir restaurantes ou bares que, com sorte, ficam rapidamente na moda. Em alternativa, entram para uma imobiliária o que, com os contactos que costumam ter, é uma aposta certa: em breve estarão ricos!

E se dantes um neto chique só casava com uma neta chique, hoje em dia, as diferenças estão muito esbatidas, de maneira que as probabilidades de encontrar e se apaixonar por qualquer outro tipo de neto aumentaram francamente. O que não é mau. Com o avanço da medicina já sabemos que misturar sangues é a melhor forma de ter filhos normais, saudáveis e inteligentes.

 

 

Comentários

comentários