Avós como nós: ISABEL STILWELL

Avós como nós

Conheço-lhes a cara de cor, o meu dedo já percorreu suavemente a linha do nariz, os contornos das orelhas, as bochechas, mais reconchudas numa do que noutra, para descer sob o queixo, e acabar pingado por lágrimas estúpidas, que insistem em cair. Já passei horas a tentar descobrir diferenças, numa busca urgente de uma identidade individual para cada uma, que as torne naquilo que todos queremos ser: únicos. Enquanto a “ocitocina por procuração” me invade, percebo que a natureza é sábia e nos armadilha a um compromisso eterno com um recém-nascido, ao voto livremente assumido de amar para sempre, na saúde e na doença, na prosperidade e na pobreza, nos momentos bons e maus da vida, até que a morte nos separe.

Depois da euforia do nascimento descobri o medo da morte, real ou imaginário não importa, aquele medo terrível que nos revela como a vida é um milagre que tantas vezes desvalorizamos porque tomamos como certo. Quando entrei na sala dos prematuros e as vi ligadas a máquinas, cateteres na mão, sondas na boca, e mais aflitivo, a Carminho com a cara minúscula escondida por uma máscara de oxigénio, os braços e as pernas fininhos a espernear contra toda aquela intromissão, rodeada de médicos e enfermeiras, fiquei sem fôlego. Seis horas depois, a gémea mais frágil reagiu bem e começou a respirar quase sozinha, e eu fiquei nas nuvens, consciente de que, pelo menos para mim, nasceu de novo.

Na manhã seguinte, hesitei no momento em que ia por nos pés os meus inseparáveis sapatos de ténis. Ups, será que uma avó pode andar de jeans com remendos e sapatos de ténis, confundindo-se ou querendo ser confundida com a mãe, ou mais grave, com um Peter-Pan que não quis crescer? Mergulhei debaixo da cama em busca de uns mocassins encarnados, um compromisso que me deixava tempo para pensar no assunto. Três semanas depois, já começo a perceber o que é ser avó, este papel difícil que exige auto-controlo e diplomacia, que nos permite estar próximo, mas nos obriga a guardar distância, a medir o envolvimento e o sentido de posse, para não magoarmos, nem nos deixarmos magoar, mas ainda cometo muitos erros. Erro sempre que pretendo catequizar a Ana sobre os benefícios disto ou daquilo, deixo transparecer que era capaz de adormecer melhor a Carminho (e bem feita, quando tentei, não fui!), ou arrotar a Madalena (uma impossibilidade), dou “lições” ao melhor pai do mundo que é o meu genro, ou dou por mim a concorrer (por dentro) pelo amor e a atenção destes bebés que de repente se tornaram o centro de tudo.

Aos poucos, volto ao mundo real, o mundo do resto da família, dos meus livros, do jornal, e dou por mim a saborear uma refeição, a reparar que o azul do céu em Sintra está cristalino, ou a falar de alguma coisa que não sejam elas, ou da mãe delas, que entre mastites e noites em contínuo a dar de mamar, enche o escuro da noite a cantar para os seus bebés. Este fim-de-semana estou longe delas pela primeira vez, e sabe-me bem reencontrar o meu espaço e o meu tempo mas, num momento de angustia, não resisto a mandar uma sms à Ana: “Achas que vou conseguir ser mesmo, mesmo importante para elas, que têm a sorte de vos ter como pais e de ser o centro das atenções de tanta gente?”. A resposta veio rápida “Acho que estamos todos com esse medo. Porque como são tão insuportavelmente importantes para nós, não suportamos imaginar não ser vitais para elas. Não tenho é dúvida nenhuma do que a mãe é para mim, sem o seu amor não as conseguia amar tanto!”. Será que os telemóveis das avós são à prova de água salgada?

(revista País e Filhos)

Comentários

comentários