DIA MUNDIAL DO EXAGERO

Eu Sem Nós

Já que há tantos «dias de…» porque é que não havemos de instituir um dia mundial do exagero? Até escusava de ter uma data definida, era um dia por ano que cada pessoa escolhia à sua vontade. Arranjava-se um desses cartões magnéticos em que ficava registado qual era o nosso dia porque não podíamos fazer batota e ter uma data de dias mundiais do exagero e bastava dizermos: hoje é o meu dia do exagero, para podermos exagerar à vontade de tudo e de todos, sem nos sentirmos culpados de coisa nenhuma.

Podíamos abusar da paciência de toda a gente que nos rodeia.

Da paciência, do nosso marido ou mulher, aproveitando para lhes exigir todos os mimos que eles não se lembraram de nos dar nos outros dias e que nós achamos que temos direito ou dos quais sentimos falta, pedindo-lhes por exemplo para nos massajarem as costas com óleos aromáticos que tínhamos guardados exactamente para esse dia glorioso… sem que eles tivessem o direito de nos dizer que não… melhor, tendo a certeza que o fariam com o maior gosto!

Abusávamos também das nossas amigas, obrigando-as a fazerem coisas incríveis, como virem connosco tratar do bilhete de identidade ou qualquer outra pincelada no género que metesse muitas horas de espera na loja do cidadão, nas finanças ou qualquer outro departamento do Estado, onde odiamos ir sozinhos mas que suportamos com companhia. Evidentemente não precisávamos de disfarçar a má disposição provocada pelo facto da pessoa que nos estava a atender, nos informar que tínhamos que voltar lá porque nos faltava um papel qualquer: exagerávamos nas trombas que morremos de vontade de lhes fazer nestas alturas, permitindo-nos mesmo emitir alguns sons elucidativos como rosnar ou bufar de fúria.

Ou podíamos exagerar no tempo que tínhamos para tomar café ou um copo ao fim do dia com os nossos amigos e, no caso feminino, exagerávamos francamente no tempo em que ficávamos ao telefone esticando-o ao infinito, a tagarelar sobre nada, sem que qualquer olhar mais malévolo nos fosse dirigido.

Também podíamos abusar da paciência da rapariguinha do shoping e pedir-lhe para desarrumar todas as prateleiras da sua loja porque «não é bem isto que eu quero, não, não era nisso que estava a pensar…» e no fim sairmos sem ter comprado nada. Ou, pelo contrário, exagerar nas compras que queríamos ter feito todo o ano e por razões óbvias não pudemos, percorrendo, uma a uma, as lojas que gostamos, e saindo de lá, carregadinhas de sacos cheios de coisas lindas de morrer.

Podíamos, numa clara demonstração de exagero, ficar até às sete da manhã a acabar de ler o livro em que estamos tão interessadas, sem pensar nas horas a que temos de nos levantar no dia seguinte, ou ver filme atrás de filme na televisão, vingando-nos de todos os dias em que o relógio rege a nossa vida ao minuto.

Podíamos abusar mesmo do vinho branco ao jantar e ficar com aquela boa disposição que o álcool, na medida certa, nos dá… e dos chocolates que queremos comer a toda a hora e não podemos, tanto por razões de saúde (embora agora tenham descoberto que o chocolate evita as cáries!) como pelas de ordem estética .

Podíamos ainda exagerar no atraso com que chegamos todos os dias ao emprego e chegar ainda mais atrasadas e ninguém nos podia culpar por isso.

E exagero por exagero porque é que não podíamos exagerar nas férias que só deviam ter trinta dias e aumentá-las para quarenta ou cinquenta?

Como o dia era do exagero, todos os «já agora…» eram permitidos sem aumento de preço, como o que se refere ao arranjo do nosso carro, «já agora, depois de arranjar todas as mossas e riscos, ponha-me aí umas jantes de liga leve e um leitor de CDs decente» . Podíamos abusar do tempo que um pôr do sol demora – abusando do próprio sol – ou ficar muito mais tempo do que é permitido, a ver nascer uma lua cheia na Expo, o melhor sítio de Lisboa para se ver nascer a lua num dia de lua cheia.

Podíamos exagero nas gargalhadas, rir alto, tão alto e com tanta vontade, que contagiávamos as pessoas que estivessem à nossa volta, ou podíamos exagerar nos gritos que tantas vezes temos vontade de dar e que são tão benéficos para a nossa saúde mental, mas não damos porque «não é o dado».

E podíamos mudar de ideias, as vezes que quiséssemos, sobre quais seriam os exageros que praticaríamos nesse dia.

Melhor que o dia mundial do exagero, só mesmo o dia mundial de sermos perfeitos… em que a ninguém seria permitido apontar-nos qualquer defeito.

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