NÃO, POR FAVOR, NÃO ME FALEM NO DIA DOS NAMORADOS!!

Eu Sem Nós

Lamento mas não vou escrever sobre o dia dos namorados.

E não vou escrever sobre o dia dos namorados porque o dia me irrita. Porquê? Porque eu nunca tive um dia dos namorados! Nem eu, nem milhões de portugueses na minha faixa etária e acima dela. Bem sei que soa a dor-de-cotovelo, a ressabiamento… e… é isso mesmo!! Lá porque este tipo de sentimentos estão muito mal cotados no mercado, não quer dizer que não os sintamos, ainda para mais quando temos toda a razão, no meu entender, para os termos!!!

E (mais uma vez) porquê? Porque quando o meu estado civil me permitia gozá-lo, não havia dia dos namorados em Portugal. Este, tal como muitos outros, foi importado depois!! Imaginem só as oportunidades que nós perdemos de receber e dar presentes! Anos e anos de presentes desperdiçados! Não tenho razão para ficar chateada com a simples menção dum dia instituído quando eu já tinha casado? Não é que eu não tenha tentado introduzir o mais subtilmente possível, este dia, no meu casamento, com comentários do tipo: »meu amor, ao fim destes anos todos, nós ainda estamos tão apaixonados que parecemos mesmo namorados…» mas o meu marido já não vai nessas conversas e por outro lado ao fim destes anos todos já me topa à légua, arrumou-me com um taxativo «o meu estatuto é de marido, não de namorado», o que literalmente me forçou a inventar razões para não gostar deste dia, razões que passo a enumerar:

Primeira: não é feriado. Se fosse, eu mudava imediatamente de discurso, passava a gostar imenso deste dia, a achar que era um dia fundamental na vida de todas as pessoas, que despertava sentimentos positivos, – e sabe Deus como estamos precisados deles… – que promovia o comércio, o turismo etc, etc.

Mas não é. Então para quê esta excitação toda?

Segunda: o dia dos namorados é fruto duma sociedade claramente consumista que inventa pretextos para obrigar o cidadão incauto a gastar mais uns euros, numa altura em que não estamos exactamente com os bolsos cheios de euros para gastar. Mas mesmo que estivessem a abarrotar… íamos gastá-los em quê?

Naqueles corações de cetim encarnado ou, pior, cor de rosa shoking inacreditavelmente kitch, que enchem as montras até ao tecto?

Em ursinhos de peluche de variados tamanhos vestidos com uma camisola que diz I Love You e que fazem com que, ao olharmos para eles, os nossos olhos tomem a forma pendurada dos daqueles cães baixotes que arrastam pelo chão umas orelhas enormes e despertam em nós sentimentos de ternura inexplicáveis??

Por amor de Deus! Quem é que consegue expor na sala os corações de cetim? É que se o seu namorado lho dá e ele não é exibido convenientemente, não tarda, vai perguntar-lhe onde está o presente que lhe deu e quando souber que você o enfiou no fundo de um armário, vai haver arrufo de certeza. A não ser que lhe diga que achou que era uma daquelas almofadinhas de alfazema que se usam para dar cheiro aos armários e gavetas, mas só pode dizer-lhe isso se o coração não tiver meio metro por meio metro!

E onde é que vai caber mais um urso de peluche uma vez que todos os seus namorados ao longo dos últimos anos lhe encheram prateleiras e prateleiras deles e portanto tem ursos de peluches suficientes para um rancho de filhos que ainda não nasceram?

Confesse que preferia um cheque disco, um cheque livro, um acessório de moda ou mesmo um relógio da Hermés… vá lá da Swatch!! Um bocadinho mais caro, está bem, mas, gastar por gastar, pelo menos que se gaste em coisas com alguma serventia!

Terceiro: Já experimentaram dar um passeio por um jardim público no dia dos namorados? É que qualquer metro quadrado de relva (mais ainda que na areia da praia em pleno Verão) está ocupado por pares de namorados enrolados uns nos outros de tal maneira que não sabemos onde começa um e acaba outro, com um despudor tal que tenho a certeza que eles acham que estão numa assoalhada privada de paredes opacas e que ninguém os vê.

O que tenho vontade de fazer – um dia vou mesmo fazê-lo – é ficar a olhar fixamente e ver qual é a reacção… Porque não? Se eles não se ralam de se enrolarem em público, também não se devem ralar de ter público…(Assim eu não encontre um dia destes alguém da minha família nestas figuras!).

Como não pretendo ser exaustiva nesta enumeração – e por outro lado não me ocorrem mais razões – vou terminar mais ou menos como comecei: por favor, mas não me venham falar no dia dos namorados!!

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