SOBRE O PODER DAS PALAVRAS

Eu Sem Nós

Pouca gente tem consciência, ao utilizar a linguagem, do poder que as palavras têm. Talvez tenha sido sempre assim e só alguns iniciados, ao longo dos tempos, soubessem a forma certa de as usar para determinados fins, como os Templários que, rezam as lendas, empregavam os sons para abrirem ou fecharem entradas secretas, tendo esta reminiscência chegado até nós sob a forma da história do «Ali-Bába » que abriu a gruta do tesouro com a palavra «abracadabra», palavra que, hoje, todos usamos quando queremos que alguma coisa mágica aconteça nas nossas vidas.

Para não falar do nosso imaginário onde se multiplicam bruxas e feiticeiros a remexerem em caldeirões ao som de cantilenas sem as quais a magia não daria resultado, ou de fadas madrinhas a pronunciarem palavras impronunciáveis para transformarem a Gata Borralheira na princesa irresistível.

Mas não é preciso ir tão longe. Basta olharmos para a quantidade de pessoas que, ao lerem as palavras do Manifesto Comunista, se converteu a essa ideologia, basta vermos como um orador como Perón conseguia galvanizar as massas apenas com o poder das suas palavras ou como os nossos políticos, hoje em dia, preparam os seus discursos, escolhendo criteriosamente cada palavra para obterem o efeito desejado.

Basta pensarmos na felicidade que sentimos quando alguém nos diz que gosta de nós, ou na emoção que uma certa poesia nos faz sentir, como se as palavras nela contidas entrassem dentro de nós e nos transformassem noutra pessoa, mais rica e melhor,

De facto, toda a nossa vida é moldada pelas palavras, desde o «sim» que dizemos no altar quando casamos, até ao «não» com que os nossos filhos ainda bebés, aprendem que há limites que não podem ou não devem ultrapassar.

Utilizamos as palavras para convencer, demonstrar, confundir, afirmar, negar, mandar, amar, odiar… numa lista interminável de verbos e, a maior parte das vezes, nem nos damos conta de que o que dizemos pode mudar a nossa vida ou a das pessoas a quem as dizemos. Ou de como o valor duma palavra pode ser diferente de uma pessoa para a outra. Ou ainda de que podemos atribuir significados muito diferentes às mesmas palavras, como acontece, com as «palavras da moda» como por exemplo a palavra «querida» que, de repente, toda a gente usa a torto e a direito, dirigindo-se às colegas de trabalho, à vendedora do quiosque em que habitualmente compra o jornal, a toda e qualquer pessoa com quem se cruze, «roubando-lhe» o significado real, depreciando-a, diminuindo-a pela banalização a que a submete, não se dando conta que esta, como muitas outras, são palavras que merecem ser guardadas, acarinhadas e apenas usadas no seu verdadeiro sentido e em relação a alguém que nos seja mesmo «querido».

No entanto, apesar da quantidade de palavras que povoam os nossos dicionários, há alturas em que, por mais que procuremos, não existe em nenhum deles a palavra própria para definirmos um conceito que se situa entre dois pólos opostos, como acontece por exemplo, com a palavra «amigo» , valiosa demais para a desperdiçarmos com qualquer um que se atravesse no nosso caminho mesmo que nos acompanhe durante parte do nosso percurso de vida.

Mas então que palavra podemos usar para descrever uma pessoa de quem gostamos e que, não sendo nossa amiga em toda a acepção da palavra, é algo mais do que conhecida? Colocando no topo da nossa escala de valores que determinam as características de um amigo, aquele que veste a nossa camisola, que está sempre presente quando precisamos, com quem podemos sempre contar, há variadíssimos matizes para todas as outras pessoas que se situam entre este lugar cimeiro e aquele em que dizemos que alguém é nosso conhecido porque apenas trocámos algumas palavras de circunstância e a seguir cada um foi à sua vida.

E quantas vezes temos a sensação que não existem palavras suficientes para nos exprimirmos, para transmitirmos ao outro exactamente o que sentimos, objectivamente, de maneira a que não haja dúvidas, ou interpretações erradas, ocorrendo-nos que inventar uma palavra especial, só para nós, podia ser a solução e, nessa impossibilidade, desejando acima de tudo que o pensamento do outro se funda com o nosso e que ele perceba o valor e o significado que estamos a dar às nossas imprecisas palavras, essas palavras que comportam o poder de mudar o rumo das nossas vidas.

E as dos outros.

 

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